30.4.08

Ligações culturais: a capoeira angola e o candomblé

Este trecho (em baixo) vem de um artigo escrito por Mestre Poloca, chamado “Capoeira Angola e Candomblé”, que foi publicado na quarta edição da revista Toques D’Angola (revista criada pelo Grupo N’Zinga). O artigo fala em várias ligações entre a Capoeira Angola e a religão afro-brasileira, usando como exemplo a história da morte de famoso Besouro Preto. Ele reflete nas histórias paralellas de perseguição das duas manifestações culturais pelo governo brasileiro. Ele também faz uma comparação da ritual dentro do jogo da capoeira (até a música) com as rituais do candomblé:

O sincretismo é muito grande na capoeira, sendo comum ouvir referências aos orixas, nkisis, caboclos, e santos católicos em seu repertório musical…

Os três berimbaus da capoeira são saudados e reverenciados pelos mestres, contramestres, e discípulos exatamente como os três atabaques do candomblé o são pelos Taata Dya Nkisi*, Makotas**, Mwaana Nkisi, e fiéis. Ao seu modo, cada um possui função litúrgica que expressa as mensagens que extrapolam a dimensão consciente do existir, fazendo a ligação entre o sagrado e o real. Na parte do canto destinada aos corridos da capoeira, tem-se os cânticos de entrada, os de desenvolvimento e os de saída. O que corresponderia no candomblé aos cânticos para o santo “descer” e para “subir”. O pé do berimbau é um espaço onde se sacraliza o gesto. É na roda que a dimensão sagrada se expressa de maneira mais notável no repertório corporal do capoeirista. Na Capoeira Angola dançar, jogar, brincar, e lutar se traduzem como possibilidades de se estabelecer comunicação com um plano mais subjetivo, mais abstrato. Essa dimensão sagrada torna o processo ensino-apredizagem longo e demorado. Na cultura Africana, o corpo e o espirito não são vistos como entidades separadas. No candomblé, por exemplo, a entidade espiritual necesita de um “corpo” (matéria) para se expressar. Na Capoeira Angola é o corpo que necesita de um ngunzo para atingir a sua melhor forma de expressão.

Antes do jogo iniciar-se, os capoeiristas através de seus gestuais, invocam proteção sagrada (sinal da cruz, o cinco Salamão, e outros). A roda é o espaço do ritual e o corpo é o santuário do segredo. Aí está presente a dinâmica da comunicação, da restribuição do ngunzo, da existência e do vigor das regras do jogo cósmico contido na capoeira. O segredo não deve ser privilégio do mestre, mas os discípulos têm que merecê-lo…

… Por fim, como no candomblé, na capoeira o aprendizado nunca termina. Segundo a Makota Valdina Pinto, “só se poder ser realmente grande quando se sabe ser pequeno”.

* pai de santo
** mãe pequena de um terreiro

Este artigo inclue também um glossário de termos usados em candomblé, e as vezes nas músicas cantadas nas rodas da capoeira. A revista inteira é super interessante, e sempre ofrece uma iluminação em vários aspetos da Capoeira Angola. Pode achá-la na biblioteca do Grupo N’Zinga.

Muito obrigada, Mestre Poloca!

2 comentários:

Bialinda disse...

Me chamo Bianca(Rosinha) sou do grupo irmaos guerreiros , aqui ta faltando nosso grupo...se vc nao conhece entre no site.
www.irmaosguerreiros.com

Passando a Limpo disse...

Olá,
tenho um interesse muito grande neste artigo por se tratar do meu trabalho na academia (universidade).
Gostaria de saber como faço para conseguir este artigo na integra, pois n consigo encontra-lo.
aguardo resposta por email.
alfredo_hitty@hotmail.com

desde já agradeço e parabenizo o blog.

ALFREDO MAGALHÃES